Crítica: Um Lugar ao Sol


Olá, leitores! Hoje novamente vou arriscar a falar de algo um pouco diferente e bastante incomum aqui no site. O texto de hoje é sobre um documentário nacional (não disse que era bastante incomum por aqui? rs) chamado Um Lugar ao Sol, dirigido pelo cineasta brasileiro Gabriel Mascaro. É uma produção de 2009 que apresenta depoimentos de moradores de coberturas luxuosas de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. O diretor teve acesso a esses moradores por meio de um catálogo que mapeia a elite e as pessoas influentes da sociedade brasileira. Porém, das 125 pessoas catalogadas, apenas 9 concordaram em ceder entrevista. É um documentário em que podemos aprender sobre o desejo de visibilidade, status e, principalmente, poder que essas pessoas têm. E, sem dúvida, podemos questionar os discursos dessas pessoas e entender as diferentes realidades que temos em nosso país.

Bom, como é um documentário, vou partir do pressuposto de que posso descrever algumas cenas e não considerá-las como spoiler. Espero estar certa sobre isso. Uma primeira cena que eu gostaria de comentar é uma cena que eu voltava e a revia várias vezes para ver se era aquilo mesmo que eu tinha entendido (começa aos 11:35 no vídeo disponível no YouTube, caso queiram dar uma conferida). Nessa cena, a entrevistada estava falando do quanto ela gosta do lugar onde mora, do quanto o Rio de Janeiro é bonito e mudou ao longo do tempo e etc. e, de repente, o marido dela comenta que antigamente não tinham as balas tracejantes e ela fala com um ar de paixão: “ah, sim, é lindo! A gente tem fogos quase que diariamente do Dona Marta ali pro cemitério, sabe? É lindo! É super bonito!”. Depois ela continua, ainda com ceto ar de admiração: “é meio trágico, mas é muito bonito. Eu não sei que tipo de relacionamento tem as duas gangues, entendeu? Mas eles trocam tiros e as balas são coloridas, elas tracejam, mostram os caminhos delas”. E, nisso, o marido comenta que as balas parecem foguetes.

Eu, a princípio, não havia compreendido muito bem o que ela havia falado, até porque não conheço nada do Rio de Janeiro e demorei a lembrar que Dona Marta é um morro/favela. Mas depois que entendi, eu fiquei pensando no quanto ela realmente é apenas uma espectadora de uma guerra que mata pessoas de todas as idades diariamente. Fiquei pensando que enquanto, de um lado, pessoas morrem com bala perdida, perdem filhos para o tráfico, para a polícia, para a guerra entre gangues e etc., de outro lado, isso tudo se resume a lindos fogos de artifício que eles têm o privilégio de ver quase que diariamente. Realmente, esse pensamento e essa cena não me saíram da cabeça.

Outra entrevistada conta que, para ela, morar em cobertura é ótimo principalmente por ela ter muita privacidade, já que a área de serviço é separada da casa e aí ela não precisa receber o pessoal que trabalha com ela e nem ouve os barulhinhos de panela que eles fazem. Nas palavras dela: “Outra coisa também que eu adoro é... porque a área de serviço, não é que eu tenha nada contra o pessoal que trabalha comigo, que são pessoas até que... fazem 25 anos, uma tem 25 anos, a outra tem 15 anos, o motorista tem mais 15, realmente são pessoas assim... mas a gente já não ouve, a gente fica com mais privacidade pra ficar sozinho”. Depois ela compara a moradia em cobertura com um apartamento dizendo: “mesmo que um apartamento seja grande, a gente sempre ouve, vamos dizer assim, batida de panela, que isso me deixa realmente agoniada”. Novamente eu fiquei pensando: “caramba, que realidades diferentes a gente tem!”. De um lado, uma pessoa que gosta que a área de serviço seja separada porque ela não gosta de receber as pessoas que trabalham para ela e não gosta de ouvir barulho de panela e, de outro lado, várias pessoas lavando as panelas dela. Ou seja, de um lado, uma pessoa que tem a opção de não ouvir os barulhos de panela que a deixam agoniada e, de outro lado, pessoas que provavelmente acordam de madrugada e passam horas no trânsito para chegar até esse emprego e que talvez nem tenham outras opções de trabalho e muito menos terão a opção de não querer ouvir barulhinhos de panela. Vocês conseguem ver a diferença de realidade nisso? Conseguem ver o quanto nosso país é desigual e o quanto isso pode ser visto apenas observando essas simples relações?

Outro entrevistado comenta que quando ele chega para o zelador e diz que vai para a cobertura, as pessoas já o veem de forma diferente. E acrescenta logo depois: “É assim. No avião você tem a primeira classe, a executiva e depois você tem a senzala lá no fundo. Na sociedade você têm mulheres com bolsa Louis Vuitton e têm mulheres com saquinho plástico na mão. Na sociedade você têm pessoas que andam de Fiat, carro velho e você vê pessoas que andam de Mercedes e Jaguar. Como eu me sinto? Eu me sinto muito bem. Eu vim ao mundo para as coisas boas da vida e pros prazeres bons da vida. Eu me sinto muito mal quando eu vejo um pobre que não tem Jaguar e não tem Mercedes. Desculpe a minha ironia. Mas eu acho que todos os pobres deveriam ter no mínimo um prato de comida na mesa”. Mais uma vez, eu preciso mencionar o quanto eu vejo diferentes realidades aqui. Acho que não preciso nem analisar o discurso inteiro para isso. Basta ver, por exemplo, que o cara chama a classe econômica de “senzala”. E quem nem mesmo tem a oportunidade de um dia viajar de avião? Outro exemplo é que, de um lado, temos quem tem carro velho ou um Fiat e, de outro, quem tem Mercedes e Jaguar. E quem nem mesmo tem a oportunidade de ter um carro?

Por fim, uma crítica que foi feita ao documentário, e que eu admito que concordo, é que ele parece ter pecado na questão ética. Ao longo do documentário, a gente fica com a impressão de que aquelas pessoas não sabem a real intenção do diretor com as entrevistas. Parece que o diretor simplesmente pediu dicas para essas pessoas sobre como era morar numa cobertura e hora nenhuma eles foram avisados de que o documentário tinha uma pegada mais para o lado social, para o lado da crítica mesmo. Ou seja, o tempo todo parece que os entrevistados estão simplesmente sendo enganados. Isso fica mais claro ainda quando um dos entrevistados elogia a equipe pela iniciativa de fazer um documentário que fale de coisas boas, pois ele vê muito documentário sobre coisas ruins, como pobreza, desastres e etc. Nesse momento eu pensei o quanto esse cara estava sendo inocente.

Enfim, quero deixar claro também que não é a minha intenção criticar as pessoas entrevistadas e, sim, destacar o quanto temos realidades diferentes em nosso país e o quanto isso pode ser visto em um simples discurso sobre como é morar em um lugar privilegiado. Ao longo do documentário temos diversos outros personagens interessantíssimos, mas que, por escassez de espaço, deixo para vocês mesmos verem e tirarem suas próprias conclusões. Realmente recomendo esse documentário e espero que gostem. Sem dúvida, é um dos meus favoritos. Um abraço e até a próxima! :)
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