American Gods: Head Full of Snow


Nesta terceira semana de American Gods, a série estabelece seu status como a mais chamativa desta Spring Season. E talvez a melhor. O seriado conseguiu consolidar seu estilo neste episódio, como a sua cena de abertura, as introduções de novos deuses que não interferem na trama imediatamente e a total despretensão de seguir o que ditam as regras das produções americanas no que diz respeito a agradar todos os públicos. É uma série difícil e apaixonante.

No enredo deste terceiro episódio, Head Full of Snow (o que acredito com quase certeza absoluta fazer referência aos Rolling Stones), temos Shadow Moon (Ricky Whittle) negociando com Czernobog (Peter Stormare) e questionando suas obrigações para com Mr. Wednesday (Ian McShane) quando este anuncia que pretende roubar um banco.

Como já citado, a cena de abertura dos episódios tornou-se algo à parte. Nos três capítulos lançados até agora temos inícios incríveis. O deste é uma muçulmana que, ao morrer, descobre que apesar da religião que segue, será julgada pelo deus egípcio Anubis, pois as histórias que sua avó contava sobre este panteão eram ainda muito vívidas em sua mente. A cena tem um jogo de expectativa logo no começo e vai se desenrolando de forma muito fluida com bons efeitos especiais e um tom bastante onírico. Começarei a esperar as cenas de abertura com grande entusiasmo a partir de agora.

O primeiro ato se preocupa em resolver o impasse no qual terminou o episódio anterior, além de apresentar a última irmã Zorya (Erika Kaar), numa cena com uma fotografia belíssima, com tons de roxo muito bem postos. Nestes primeiros minutos, temos uma das melhores execuções da direção até agora: uma sequência de cortes que avança duas histórias diferentes e que vão aumentando a tensão, apesar de uma mostrar basicamente um jogo de damas e a outra um encontro romântico na chuva. Por falar nisso, chove durante toda a primeira parte do episódio e os personagens volta e meia olham para cima observando as nuvens carregadas. Pessoalmente, isso me deixou com muitas esperanças de que o próprio Thor aparecesse em meio aos relâmpagos, empunhando seu martelo. Infelizmente vai ter que ficar pra próxima.

A primeira metade do segundo ato avança a história nos trazendo de volta o leprechaun gigante Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e o sangue tão presente no primeiro episódio. Além disso, temos linhas de diálogo que explicitam a situação precária e decadente em que vivem os deuses antigos hoje em dia. Depois, na segunda metade do segundo ato, temos mais uma apresentação de uma criatura mitológica, desta vez um Jinn.

Essa introdução tem proporções homéricas e funciona quase como um curta-metragem dentro do episódio. A cena em questão nos apresenta Salim, um imigrante árabe que vai para os Estados Unidos em busca de emprego, mas sem sucesso. Depois de uma entrevista de emprego onde o entrevistador não aparece, ele volta para casa abatido e entra no táxi de um motorista também árabe. Depois de um diálogo muito bem construído, que revela todo o aborrecimento de Salim, ele reconhece no motorista a faceta de um Jinn, um demônio árabe que na nossa cultura ocidental é conhecido como o gênio da lâmpada.

O desenrolar dessa trama se dá no quarto de Salim, no que foi dito na imprensa americana como a cena gay mais explícita da televisão até hoje, enaltecendo tudo o que ocorre entre os dois na cama. Algo extremamente raso de se observar, já que apesar de ter no sexo seu elemento principal, a cena o tem apenas como um recurso narrativo para a revelação no final do “curta”, que é no mínimo enigmática. Entretanto, apesar de ser uma ótima sequência e ajudar a separar as ações e situações pelas quais passa o protagonista de forma mais lúdica, a história de Salim quebra um pouco o ritmo do episódio.

Quando voltamos à história regular da série, vemos o tal plano de roubar um banco do Sr. Wednesday ser executado. Plano este relativamente simples e que quebra as expectativas de qualquer um, além de que serve como pano de fundo para o que eu julgo ser a coisa mais importante deste episódio: a entrada de Shadow Moon neste mundo fantasioso, deixando para trás tudo o que ele conhecia como realidade.

Temos também no terço final do episódio um tom mais cômico. Tiradas mais engraçadas do que tudo o que foi mostrado até aquele momento na série. Além disso, temos uma única frase solta no meio de um diálogo que finalmente nos dá uma luz sobre os objetivos do personagem de Ian McShane para com o protagonista, o que pode gerar muita discussão até o final dessa temporada.

American Gods entrega mais uma vez um ótimo episódio, agora firmando seu estilo próprio. Ansioso pelo desenrolar da história e a introdução de mais elementos fantasiosos na construção desse universo que se mostra cada vez mais fascinante.



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