Preacher - 1ª Temporada (Com Spoilers)


Se você caiu aqui de paraquedas e ainda não assistiu à primeira temporada, cuidado, esse texto contém spoilers. Lhe aconselho a ler a crítica que eu fiz (essa aqui), depois ver todos os episódios e só então voltar aqui. Se você já assistiu, seja bem vindo. Nós vamos discutir os principais pontos dessa série que até aqui se mostrou genial.

Começando pelas mudanças em relação à obra original. Muita coisa ganhou uma roupagem diferente quando passou das páginas dos quadrinhos para a tela da TV. Novos personagens adicionados e velhos personagens com histórias completamente diferentes movimentam a trama. Isso poderia ser ruim se a motivação fosse chamar mais público para a série sem se importar com a história em si, mas é justamente o contrário.

Toda adaptação, como o próprio nome sugere, tem de fazer mudanças para se enquadrar à nova proposta do trabalho que está iniciando. No caso de Preacher, passamos de uma história em quadrinhos dos anos 90 para uma série de TV dos anos 2010. Sendo assim, é natural que tudo seja atualizado para os dias atuais. Preacher consegue fazer isso sem mudar o espírito da obra de Garth Ennis. Por exemplo, o Cara-de-Cu, nas HQs, tenta se matar depois que Kurt Cobain comete suicídio. Na série. o mesmo personagem atira na própria cabeça por uma desilusão amorosa, reflexo da infeliz frequência com a forma que a geração Z lida com relacionamentos que não dão certo. Apesar de vermos essa atualização em praticamente todos os personagens que têm uma contraparte nos quadrinhos, a melhor adaptação ficou para a Tulipa.

A ex-namorada do pastor e a maior chutadora de bundas que vemos na história é uma garota branca e loira nas HQs, quase completamente o oposto da atriz que a interpreta na série, a talentosíssima Ruth Negga. Acontece que para tal troca de etnias há um motivo. Um bom motivo.

Em 1995, quando Garth Ennis concebeu Preacher com Steve Dillon, eles queriam que a principal personagem feminina fosse uma garota pobre do meio-oeste dos Estados Unidos cujo futuro não era nada promissor e que tem de provar aos outros a todo momento que ela é capaz, que ela é independente. Apesar de todo o racismo que tem séculos de existência, tal estereótipo era melhor representado pela típica garota sulista, a caipira do interior. Já em 2016, com Seth Rogen e Evan Goldberg à frente da produção televisiva, a atualização veio naturalmente. Hoje em dia, com a discussão sobre racismo finalmente ganhando foco na grande mídia, é a garota negra e pobre que corresponde ao que os criadores da HQ queriam originalmente.

Além disso tudo, temos a maior mudança em termos proporcionais entre a série e a HQ: o seriado se passa antes dos acontecimentos dos quadrinhos. Foi uma escolha muito feliz dos produtores, já que assim permite que a série tenha um desenvolvimento melhor, criando uma identidade própria, podendo continuar a fazer as atualizações que forem necessárias.

Mas nem tudo são flores entre essas mudanças. Algo que funciona muito bem na primeira temporada, mas que pode causar problemas mais tarde é a antecipação do vilão Odin Quincanon, cujo arco nas HQs é muito maior e mais louco, apesar de não tão bem construído. Odin é um vilão importante que morreu logo na primeira temporada. Vamos ver o que os produtores vão fazer.

Algo que também precisa ser mencionado é o ritmo da série. Alguns amigos meus abandonaram a história no terceiro episódio. Pobres almas. Mal sabiam eles que isso era proposital. É uma aposta arriscada, é verdade, deixar que o início de uma série seja tão lento, principalmente com a geração do imediatismo, mas, veja bem, tudo o que acontece nesses primeiros episódios serve para construir os personagens e os arcos secundários da temporada. Eu sei que pode ser chato ver o que fazem os fiéis de uma igrejinha do interior do Texas, mas se nós não acompanhássemos a história dessa forma, seria muito difícil vermos que a) os moradores de Annville são o pior tipo de pessoa que existe e b) não sentiríamos empatia por certos personagens quando a cidade toda é destruída numa explosão de bosta.

Outra coisa na série que merece destaque são, contraditoriamente, os detalhes. A forma como a série trabalha seus detalhes é de cair o queixo. É neles que estão as dicas pros desfechos de todos os arcos. O romance entre o índio e o cão da pradaria só é visto em cenas pontuais durante toda a temporada e no segundo plano, desfocados, lá atrás. O senhor de meia idade, que é o responsável pela caldeira de metano e consequentemente pela explosão no último episódio, é visto em cenas aparentemente jogadas em vários episódios e também na abertura. Estava na nossa cara o tempo todo!

Entretanto, o melhor exemplo dessa brincadeira é o plot do Santo dos Assassinos. Mais uma vez vemos em episódios pontuais pequenos flashbacks do Santo no Velho Oeste. Sem nenhuma conexão com isso, nós temos os letreiros que sempre nos dizem onde estão acontecendo as cenas. Não haveria de ter qualquer ligação uma coisa com a outra, afinal esses letreiros são um recurso cinematográfico muito comum, com origens ainda no cinema mudo. Mas eles se tornam um importante recurso narrativo (e metalinguístico) no momento em que vemos o Santo dos Assassinos em um de seus piores momentos e os letreiros mostram em letras garrafais e amigáveis a palavra INFERNO. Simplesmente um dos melhores plot twists desde que Becca e Tyler Jamison descobriram que aqueles velhinhos estranhos não eram seus avós.

Preacher é uma das melhores séries da atualidade com mentes geniais por trás do projeto. Um seriado louco e sanguinolento envolto em intelectualidade. Um trabalho surpreendente. E que a busca por Deus comece!

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Afinal, nem todo herói precisa de superpoderes, basta ter um coração generoso...



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