Preacher - 1ª Temporada (Sem Spoilers)


No início da década de 90 a DC Comics via o sucesso de algumas de suas séries com temática mais adulta crescer. E, para não manchar a imagem da editora, foi criado o selo Vertigo, para onde migraram os principais quadrinhos desse estilo, como Sandman, Hellblazer, Homem Animal e Monstro do Pântano.

O diferencial desse selo é que a postura adotada para as novas séries a serem lançadas por ele buscava investir em roteiro, indo na contramão da indústria da época que se preocupava muito mais com a arte, mais especificamente com heróis musculosos e heroínas fetichizadas (sim, Rob Liefeld, estamos falando de você). Nessa leva de escritores veio Garth Ennis, um escritor norte-irlandês que já trazia na bagagem a criação da série Hitman. Ennis veio escrever para Hellblazer, o que posteriormente lhe permitiu lançar sua própria série: Preacher.

Preacher, como HQ, gerou muita polêmica. A história mostra um pastor desajustado que é possuído por uma força sobrenatural que lhe dá o poder da Voz de Deus. Na prática, tudo o que o pastor diz usando esse poder é obedecido por quem lhe ouvir. Junto de sua ex-namorada e seu melhor amigo, um vampiro irlandês, o pastor sai em busca de Deus, pois este saiu de seu posto sem dar notícias e está desaparecido. A polêmica vem por conta de que dentro dessa premissa não há pudor nenhum quanto à violência e às críticas religiosas. Por isso que quando foi anunciado que haveria uma adaptação para a TV, uma sensação de euforia e medo tomou conta de tantos fãs dos quadrinhos. Euforia porque depois de longos 16 anos, finalmente a série seria adaptada. Medo porque seria muito fácil os produtores aliviarem o conteúdo para alcançarem um público maior. Mas as nossas preocupações deram lugar a mais pura satisfação no dia 22 de maio de 2016. Logo no primeiro episódio vemos que Preacher é exatamente o que deveria ser.

A série de TV, produzida pelo canal AMC (o mesmo de The Walking Dead, Breaking Bad e Mad Men), começa num ritmo lento. Acontecimentos irrelevantes e banais que num primeiro momento parecem ser desconexos são o foco dos primeiros episódios. Mas não se engane. Os produtores usam esse recurso para construir o ambiente e os personagens e que nunca são completamente bonzinhos ou completamente mauzinhos.

Personagens esses que são interpretados com maestria pelo casting. O trio principal com Dominic Cooper interpretando o Pastor Jesse Custer, Ruth Negga (indicada ao Oscar 2017 de melhor atriz) como a ex-namorada do protagonista, Tulipa O’Hare, e, por fim, Joseph Gilgun no papel do vampiro Cassidy, são uma das melhores coisas da série.

Do meio para o final, a primeira temporada começa a fazer as conexões entre os elementos sem sentido e o plot principal, que são as consequências sociais e morais do poder que o pastor agora tem, ganha corpo. Toda a construção desse primeiro ano, com seus arcos secundários elaborados detalhe a detalhe, culmina onde as HQs começam e nos faz querer a segunda temporada logo após o término do último episódio.

Entretanto, dois pontos em que a série é genial podem, por isso mesmo, afastar as pessoas. O primeiro é a forma como os quadrinhos são adaptados. A HQ de Preacher foi lançada originalmente em 1995 e tem uma identidade muito forte daquela época. A série de TV adapta muito bem essa atmosfera atualizando todos os conceitos dos idos da década de 90 para os dias de hoje. Outro aspecto que pode ser intragável para algumas pessoas é o clima que o programa nos passa. Como disse, no início, os acontecimentos são caóticos e acontecem a passos lentos. Há também críticas muito pesadas sobre o estilo de vida ocidental e a cidade onde se passa a história é um dos piores lugares da Terra. A fotografia – belíssima, diga-se de passagem - nos dá a impressão de um lugar quente e seco e todas as pessoas são egoístas, mesquinhas e violentas. Além disso, os sentimentos que a série nos impõe com a sua trama não são nada bons. Aflição, tristeza, medo, raiva. Disso para pior.

Uma grande parte de quem assistir não vai gostar de primeira. Preacher não é uma série convencional, mas é excelente e vale a pena a sua atenção. Uma das melhores adaptações de quadrinhos atualmente na TV.

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Afinal, nem todo herói precisa de superpoderes, basta ter um coração generoso...



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