Crítica: The Silenced


O continente asiático abriga muitos grandes polos da indústria cinematográfica. Na China temos as indústrias de Hong Kong e Xangai; no Japão temos uma grande produção de filmes, do terror, passando pelo drama até... bem, até outros tipos de filmes (aquela carinha); e sem esquecer, é claro, do cinema indiano, muito bem representado por Bollywood. Um mercado dessa parte do mundo com produções dedicadas ao cinema que vem crescendo muito rapidamente nos últimos anos é o sul-coreano. Tivemos grandes expoentes vindos do sul da península da Coreia, como Train to Busan, Expresso do Amanhã e o classicíssimo Oldboy.

Um filme que saiu justamente desse país e que fez algum rebuliço nos festivais de cinema asiáticos de 2015 foi The Silenced, ou Gyeongseong Hakgyo: Sarajin Sonyeodeul no original. Curioso (e bem atrasado, diga-se de passagem), resolvi ver do que se tratava a obra. E ela tem muita coisa interessante a ser observada, tanto tecnicamente quanto as viradas de roteiro. Portanto, depois do aviso lá embaixo, tudo o que você ler, poderá conter spoilers. Então, tome cuidado. Vamos lá.

O filme se passa na década de 30 quando a Coreia era parte do território japonês. Nesse cenário temos Ju-ran/Shizuko (Park Bo-young) que, por ter contraído tuberculose, é internada em um orfanato para recuperar sua saúde. Durante sua estadia na instituição, coisas estranhas acontecem, como o desaparecimento incomum de outras garotas. Determinada a descobrir a verdade por trás disso, ela e sua nova amiga, Yeon-deok/Kazue (Park So-dam), começam a investigar esse mistério.

A primeira coisa que percebemos é a belíssima fotografia. O filme começa dentro de um carro e nele temos planos que focam em pequenos detalhes e, quando a câmera sai do veículo, passando a persegui-lo pela estrada, temos um plano aberto maravilhoso que logo de cara nos apresenta o quão isolado é o lugar para onde estão levando a protagonista.

Já no orfanato temos uma união entre a fotografia e a direção de arte. Cada detalhe do cenário é meticulosamente bem posicionado em tela e é de uma beleza incrível. A forma como os raios de luz, filtrados pelas cortinas da janela, batem na cama da protagonista, cria um ar de tensão muito grande. Sempre que a câmera passeia pelos corredores do prédio, temos a sensação de que algo vai pular em direção à tela. Mas nem só de beleza visual é construído um bom suspense.

A trilha sonora, que chega devagarzinho com suas notas agudas, causa tanta agonia que desejamos que o susto venha logo para sairmos de tal desconforto e é aí que entra uma das genialidades do longa: às vezes o susto não vem. É muito satisfatório ver como um bom diretor consegue trabalhar tão bem com esses elementos para criar tanta tensão no espectador. Palmas para Lee Hae-young.

Agora parem as palmas, pois o diretor também pecou muito. Não que ele tenha feito muitas coisas ruins. Apenas uma coisa em todo o filme é ruim e, infelizmente, isso pesa muito no final. A edição é péssima.

Toda a construção visual e sonora do longa, que causa tanto suspense, muitas vezes, é diminuída com a inserção de cenas que desviam o foco do mistério ou mostram sequências desnecessárias ou cortam rápido demais, sem nos deixar saborear o gosto amargo do terror. Muitas cenas que carregam um peso narrativo e emocional tremendo dentro da trama perdem força por serem inseridas na hora errada ou por se repetirem demais, afetando até o ritmo da obra em alguns pontos.

Dito isso, e voltando para o que é bom, o roteiro do filme surpreende por ser tão redondinho, amarrando todas as pontas soltas e dando um final a cada um dos personagens secundários. E, por falar em final, que desfecho maravilhoso. Um plot twist que poderia ter sido escrito por M. Night Shyamalan. E para falar dele é preciso dar spoilers. Então, se você não assistiu ao filme, deixa a aba do De Volta para a Taverna aberta e assista. Depois volta aqui e continua. Pode ir, eu espero.





AVISO DE SPOILERS





Caramba! O filme todo constrói uma aura de suspense e mistério sobrenatural de arrepiar os cabelos. Imagens que remontam ao clássico fantasma japonês que sempre dá as caras em produções nipônicas, como podemos ver nas versões originais de O Grito e O Chamado, por exemplo. Tudo isso sendo arquitetado, cena a cena, nos fazendo acreditar que um ser do além é responsável por sumir com as meninas e transformá-las naquelas coisas horrendas, para no final, nos ser revelado que é uma experiência científica do governo!

Tá legal que existem mais pistas que indicam isso (como as marcas deixadas pelo soro que a protagonista toma para se recuperar) do que pistas falsas, mas essa premissa é simplesmente genial. É de cair o queixo ver como o enredo foi tão bem feito em conjunto com a produção para criar o clima de um filme de terror para no final ele se transformar numa ficção científica clássica. Uma pena a edição ter sido tão desleixada. Se não fosse isso, seria um dos melhores filmes que eu já assisti.

The Silenced vale muito a pena ser visto. Uma prova de que a capacidade de contar uma boa história no cinema não está apenas nas mãos dos americanos.

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