Crítica | Malasartes e o Duelo com a Morte


Pessoalmente eu tinha muitas expectativas para Malasartes e o Duelo com a Morte. Em parte porque é um filme de fantasia brasileiro, e não temos muitas obras do gênero por aqui. É verdade que também porque O Auto da Compadecida é um dos meus filmes favoritos (eu o assisto pelo menos uma vez por ano). E Malasartes chegou com uma proposta muito parecida, um longa que mostra um personagem da cultura popular fazendo suas peripécias. Mas para ser honesto, o maior motivo de eu estar ansioso por esse filme é que meu avô me contava muitas histórias do Malasartes.

Eram ótimas as festividades de São João. Nós sentávamos na calçada, em frente à fogueira, e Pai Bel (meu avô) contava as mais variadas histórias. Todos contos populares, com estruturas muito parecidas com as histórias dos irmãos Grim, incluindo todo o arcabouço de elementos fantásticos. Eram piadas falantes, amigos que viravam pedra, princesas lindíssimas que não sorriam nunca. As histórias do Malasartes eram umas das que eu mais gostava. E isso me deixa ainda mais triste ao constatar que o filme baseado nas histórias que eu tanto adorava quando criança é um filme ruim. Mas antes de eu dizer o porquê, vamos ver do que se trata esse longa.

Pedro Malasartes conta a história de um caboclo que com sua esperteza leva vantagem em cima de todo mundo. Além disso, ele tem como padrinho a própria Morte, que está cansada do serviço de ceifar vidas e quer o afilhado para ocupar sua função.

Malasartes e o Duelo com a Morte é um filme que cai no mesmo buraco que grandes blockbusters de Hollywood têm caído ultimamente. Muito bem feito tecnicamente, mas com um roteiro que deixa muito a desejar. Infelizmente, “deixa muito a desejar” é um eufemismo quando se trata do roteiro desse filme. Malasartes falha em tudo o que poderia falhar no que diz respeito a esse aspecto. A trama é desnecessária, cheia de furos, os personagens parecem agir de forma aleatória, uma estrutura caindo aos pedaços, mas vamos por partes.

O filme tem duas locações principais: a vila onde mora o protagonista e o Outro Mundo, o reino da Morte. No primeiro ato somos apresentados a Malasartes (Jesuíta Barbosa) e o conflito que ele tem com um antagonista secundário, o gigante Próspero (Milhem Cortaz), irmão de Áurea, interpretada por Isis Valverde.

Nesses primeiros minutos temos um exemplo da sabedoria de Malasartes, quando ele rouba o cavalo e o dinheiro de um transeunte. Essa cena deveria nos apresentar a esperteza de Malasartes, como ele dribla as adversidades da vida no interior, mas a forma como é desenvolvida nos faz ficar do lado da pessoa que foi enganada, fazendo-nos questionar as ações de Malasartes e não criarmos empatia com o personagem, mesmo com todo o carisma de Jesuíta Barbosa.

Em seguida, descobrimos que o pai de Malasartes devia muito dinheiro a Próspero e o filho herdou a dívida, sofrendo tentativas de escravidão por parte do gigante a todo momento. Quando esse plot nos é apresentado vem à tona um dos maiores problemas do longa. Tudo o que Malasartes fala para Próspero na tentativa de escapar do trabalho pesado dá a impressão de que é mentira, quando na verdade não é. E em vez de usar a inteligência para escapar, Malasartes apenas se aproveita de uma distração de Próspero.

Pode parecer que minhas críticas à forma como o personagem principal se porta é apenas por que eu já o conheço das histórias do meu avô, ou por que talvez eu estivesse esperando um Auto da Compadecida 2, mas não. A abertura, narrada, pelo incrível Lima Duarte, nos faz acreditar que Malasartes é O Homem Mais Esperto do Mundo e não é isso que vemos em tela. E, pior, quando vemos é sempre um ato de desonestidade, o que, como já falei, dificulta bastante o espectador criar uma conexão com ele.

Depois de fugir, Malasartes acaba indo parar nO Outro Mundo e aí vem um detalhe muito importante. O filme poderia ter acabado ali. Isso se o roteiro se importasse em fazer sentido. Em vez disso, a Morte (Júlio Andrade) bola um plano extremamente complicado e desnecessário para fazer seu afilhado assumir seu lugar. Isso toma muito tempo de tela. A proporção do primeiro pro segundo ato é quase de um pra um. Muita coisa poderia ter sido cortada sem prejudicar em nada a história, mas sigamos.

Todas essas características ruins, eventos que poderiam ser simples são esticados para fazerem o filme ser considerado um longa-metragem, Malasartes sem nenhuma ideia realmente inteligente e mostrando que não tem nenhum valor que o torne digno de ser um protagonista, continuam até o final do filme. Com todos esses problemas, o potencial que tinha a obra foi por água abaixo, mas calma que ainda tem mais.

O filme é do gênero fantasia, com uma pitada de humor que seria melhor não estar lá. O timing das piadas é horrível. As únicas vezes em que rimos é quando o Leandro Hassum está em cena, e não pelas tiradas cômicas em si, mas pela linguagem corporal que o ator faz interpretando o ajudante da Morte.

Outra coisa ruim (e essa é a última, prometo) é que a construção do mundo fantástico no filme é inverossímil. Algumas regras são apresentadas no início e elas fazem sentido naquele universo, mas depois uma enchente de outras regras são apresentadas sempre que é conveniente elas existirem.

Agora vamos falar de coisa boa, deixar esse marasmo para trás. A produção é belíssima, os cenários construídos fisicamente (já, já você entende porque eu fui tão específico) conseguem passar muito bem a sensação de que os personagens vivem no interior mesmo. Um mundinho pequeno que não tem muito mais do que 4 ou 5 ruas cercadas por natureza.

A fotografia também dá suas caras. É muito vívida na vila de Malasartes e mórbida no outro mundo. E o que a coroa é que ela assume uma sépia sempre que a Morte está no nosso mundo, emulando uma mistura entre os dois ambientes.

Entretanto, a coisa que mais chama a atenção são os efeitos especiais. O outro mundo é construído quase inteiramente em Computação Gráfica e em nenhum momento os efeitos parecem estar mal renderizados ou com o visual do PlayStation 2. Todo o CGI do filme é muito bonito e se preocupa com detalhes que agradam sempre que aparecem, como quando algum ser sobrenatural se move e deixa rastros, tal qual os comensais da morte em Harry Potter ou a Sininho no filme live action de Peter Pan.

Um filme que poderia influenciar e divulgar a fantasia nacional no cinema, mas que dificilmente o fará. Com tantas histórias incríveis do personagem no repertório folclórico brasileiro é difícil acreditar que o filme tenha falhado desse jeito.

E para quem não conhece e ficou curioso sobre esse tal Malasartes que habita o imaginário popular, aqui está uma das histórias que o meu avô contava dele:

Pedro Malasartes era o homem mais sabido do mundo e o Rei tinha noção disso. Por muitas vezes o Rei quis que Malasartes trabalhasse para ele, mas o pobre camponês não tinha ambição de ser o conselheiro do rei, ele preferia ficar em casa sem fazer nada.

Um dia o Rei o chamou e lhe deu uma missão.

-- Quero que você faça algo para mim, Malasartes, mas se você falhar trabalhará como conselheiro real para sempre.

-- E que missão é essa, Meu Senhor?

Com um sorriso largo e prepotente o rei proferiu, pensando que dessa vez ele ia pegar o Malasartes.

-- Eu quero que você vá à feira e compre arre para mim. Arre e alguns ovos.

-- Arre, Meu Senhor? Mas o que é arre?

-- Sem conversa, Malasartes. Vá logo!

Mesmo sem entender muito bem, o camponês foi.

Chegando à feira, ele não teve dificuldade em comprar os ovos, o arre é que foi difícil. Ele procurou em todas as bancas e ninguém sabia dizer nem ao menos o que era. Aceitando seu destino, nunca mais ele passaria a tarde à beira do riacho sem fazer nada, Malasartes decidiu voltar ao palácio. Foi então que no meio do caminho bateu-lhe uma dor de barriga e ele correu para o mato para se aliviar.

Nessa pressa desenfreada, Malasartes não viu onde se abaixou e acabou de cócoras sobre um pé de urtiga.

-- Aaarre! – Gritou ele num salto. Ele teve uma ideia.

Depois de terminar o que foi fazer, Malasartes arrancou algumas folhas de urtiga e as colocou na sacola sobre os ovos.

Chegando à presença do Rei, o monarca, crente que teria Malasartes ao seu lado perguntou:

-- E então? Trouxe o que eu pedi?

-- Trouxe sim, Meu Senhor.

O Rei, sem nenhum pudor, meteu a mão na sacola na ânsia de questionar Pedro pelo produto que faltava, quando deu um pulo gritou.

-- Aaaaarre!

No que Malasartes respondeu:

-- E os ovos estão embaixo.

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