Crítica | A 13º Emenda


A indicação de hoje é o documentário A 13ª Emenda, lançado pela Netflix em outubro de 2016 e que fala sobre o sistema carcerário e étnico dos Estados Unidos. Vale lembrar que ele foi o vencedor do BAFTA 2017, ficando com o prêmio de melhor documentário.

Seu título se deve à 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, aprovada pelo Senado em 1864 e no ano seguinte aprovada pela Câmara dos Representantes e já adotada oficialmente.

A 13ª Emenda afirma o seguinte: “não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. Parece muito bonito, não é? Exceto pela parte que diz “salvo como punição de um crime”. O documentário nos mostra que essa parte foi usada por muitos anos para que os negros continuassem sendo escravizados. Coisas bobas como “vagabundagem”, por exemplo, passaram a ser consideradas crimes e, assim, houve um encarceramento em massa e trabalho forçado da população negra.

O documentário começa com parte de um discurso do ex-presidente Barack Obama, em que ele diz que os Estados Unidos são lar de 5% da população mundial, mas 25% de toda a população carcerária do mundo. É dado destaque ainda para a grande influência do filme O Nascimento de uma Nação, de 1915. Esse filme foi responsável pela criação de uma imagem de que os negros eram criminosos e deveriam ser temidos. O documentário acompanha e nos apresenta cenas de décadas de linchamentos, violência racial e leis de Jim Crow que levaram a uma reação da população negra na forma do movimento dos direitos civis. As leis de Jim Crow foram leis segregacionistas que vigoraram entre 1876 e 1965. Isso mesmo. Pasmem! Essas leis vigoraram até 1965!

Ao longo do documentário nos é mostrado como a população negra era tratada até há pouco tempo. Até os dias atuais, na verdade. Um exemplo é quando um cara (George Zimmerman) persegue e acaba matando um garoto negro (Trayvon Martin) simplesmente porque ele achou que o garoto era “suspeito”. O pior de tudo é que Zimmerman foi considerado inocente porque uma lei da Flórida chamada “não ceda terreno” permite que você mate alguém caso se sinta ameaçado (mesmo que tenha sido ele quem perseguiu o garoto pelo bairro com uma arma). E isso parece uma coisa que aconteceu, no mínimo, no século passado, não é? Mas não, isso aconteceu em 2012. Repito: 2012!

Outro ponto importante que o documentário toca é a falida guerra às drogas que nós ainda vivenciamos e que tem início na década de 1970 com o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. O mais interessante dessa guerra às drogas é que o documentário mostra a diferença enorme entre a pena para quem era pego com cocaína e para quem era pego com crack. A diferença basicamente é que enquanto a primeira era encontrada majoritariamente em bairros ricos, a segunda era encontrada em bairros pobres e de população negra. A pena para a posse de 30 gramas de crack era a mesma pena para a posse de 3 quilos de cocaína.

O documentário mostra ainda imagens de Donald Trump (bem mais novo), falando sobre o caso de uma corredora no Central Park, em 1989, em que cinco adolescentes negros e latinos foram condenados pelo espancamento e estupro da vítima, mas provas posteriores provenientes de uma análise de DNA acabaram confirmando que eram inocentes. Porém, à época, o caso levou Trump a publicar um anúncio que ocupava uma página inteira do New York Daily News pedindo para que o estado aplicasse a pena de morte.

Bom, é um documentário que vale muito a pena assistir. É bastante interessante e não fica chato em momento algum. Além disso, explica muita coisa que a gente geralmente não faz ideia. Vale lembrar ainda que ao longo do documentário são mostradas muitas cenas dos negros sendo agredidos, muitas vezes por estarem simplesmente andando pela rua. Então, nesse ponto, vejam por sua conta e risco. Para mim, admito que foram cenas bem fortes.


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